Dona T.

O domingo

In cotidiano on maio 30, 2011 at 10:15 am

Houve um tempo em que o domingo era definitivamente um dia abominável para mim. O dia que precedia a segunda, o dia que me jogava na cara todas as coisas atrasadas que eu havia deixado por fazer. Quando criança, eu odiava os domingos já que eu não encontrava meus amigos, tudo estava fechado e para piorar com certeza teria algum contato com uma notícia bizarra do Fantástico, como o maníaco do parque ou o chupa cabras. Felizmente essa má impressão do domingo, para mim, virou uma lembrança. Hoje, posso afirmar que domingo é realmente o 7º dia, o dia do descanso, e é tão bom isso. Eu adoro saber que no domingo não tenho hora para acordar, que posso fazer um almoço de quantas horas eu achar apropriado e ainda dormir, assim que me retirar da mesa.

Na verdade eu não costumo acordar extremamente tarde no domingo, almoçar, dormir e acordar só na segunda, até porque se o fizesse acredito que o domingo perderia esse sabor gostoso pelo qual tenho tanto apreço atualmente. Tá, domingo pode fazer sol, chuva, frio ou calor como um dia qualquer e você pode vir com essa de que a única coisa que muda entre um dia de domingo e outro dia da semana é o nome, ok, você está certo, só que para mim é realmente diferente. Uma das coisas que mais gosto no domingo, principalmente quando é um ensolarado, é passar a tarde inteira no quintal da minha casa, seja fazendo uma longa refeição sob a sombra da primavera, seja tomando um solzinho conversando com alguém que também esteja tão ocioso quanto eu. Exceto os dias chuvosos e extremamente frios, fico muito irritada quando passo o dia dentro de casa, vendo TV ou em frente ao computador, deixando passar o dia sem perceber que as horas se vão.

Hoje eu gosto das manhãs dos domingos, das tardes dos domingos e até me surpreendo com algumas ótimas noites de domingos (porque à noite ainda tenho a sensação de dia que precede a segunda). É, é… que venha o próximo, então.

A caixa do banco do brasil

In cotidiano on maio 25, 2011 at 9:26 pm

O que uma semana de provas não faz com a gente. Tava difícil sobrar tempo para escrever. Mas vamos lá.

Há algum tempo já penso em escrever sobre a caixa do banco do brasil, toda vez que vou lá e por ela sou atendida, saio pensando ‘hoje eu escrevo’, mas aí a correria do trabalho me faz esquecer até a próxima vez que tenho que voltar ao banco. Há pessoas que me despertam um interesse, como o cobrador do ônibus deste post aqui, e eu começo a imaginar suas vidas, suas histórias.

Essa moça, já que apesar de jovem já deve ter passado dos trinta, tem uma beleza nada óbvia. Ela mesma não deve saber da beleza que tem, e por isso não dá valor. Nunca a vi de cabelos soltos, mas imagino que a deixam com ainda mais personalidade, já que são curtos e ondulados, junto a sua franja que assim como o cabelo, está sempre presa. Ela é séria, porém simpática. Sempre poupa o máximo de palavras, e sempre se mostra o mais prestativa possível. Uma combinação de características contrastantes, que funcionam bem nela.

Apesar das poucas palavras, acredito que ela seja muito inteligente. Às vezes penso o que a levou a ser uma caixa de banco, não que não seja uma profissão digna, mas na minha opinião, ela parece combinar com um cargo mais dinâmico, de alta responsabilidade, que gerencie pessoas talvez. Não sei. Poderia escrever uma história pra ela, sem contar a ninguém que ela existe. Mas assim, da forma que estou a apresentando, não me sinto no direito.

Eu não costumo marcar bem as pessoas, nem nome, nem feição, nem vestuário, nem voz, nem nada. Mas tem algumas que, incrivelmente, sem fazer nada, são singulares. Basta um olhar, uma palavra… marcam os que com ela tiveram contato. É engraçado isso. Lembro-me que um dia estava na academia e um cara veio falar comigo, disse que trabalhava no mesmo prédio que eu, e de fato trabalhava, e que já tinha me notado lá. Eu nunca tinha o visto na vida. Conversamos um pouco (talvez eu não tenha sido muito simpática, já que detesto conversar enquanto faço exercícios), nos despedimos e adivinha? No dia seguinte não fazia idéia de quem era a pessoa que havia falado comigo. Com certeza deve ter me achado a pessoa mais antipática do universo, e com razão, mas eu nunca mais lembrei e ele nunca mais veio falar comigo. Enquanto isso, lembro-me bem de pessoas com as quais nunca troquei uma única palavra, ou poucas, no caso da caixa.

Compaixão

In Opinião on maio 10, 2011 at 10:37 am

Desde que li “A Insustentável Leveza do Ser” (Milan Kundera, 1984), fiquei de pesquisar melhor sobre o livro, por curiosidade mesmo, já que me agradou bastante assim como me identifiquei com a linha de pensamento. Eu li o livro há alguns anos e hoje, dia 09 de maio de 2011 resolvi procurar algo no Google. Cliquei na primeira sugestão, Wikipedia, e comecei a ler.

Um capítulo do livro é dedicado inteiramente à compaixão. Não me recordava disso, mas lendo no Wikipédia achei muito interessante a seguinte observação:

“Kundera afirma que as derivações latinas da palavra compaixão significam simplesmente piedade, um sentimento que se impõe quando um indivíduo está em posição de superioridade frente a um outro que sofre. Assim, a compaixão torna-se uma relação de poder dominadora, na qual um indivíduo se sobrepõe sobre outro, podendo oferecer-lhe sua compaixão como um presente, sem porém compartilhar do sentimento que leva o próximo a sofrer.

Nas línguas germânicas, porém, compaixão assume um sentido de “co-sentimento”: o indivíduo que sente compaixão sofre junto com o seu próximo, o mesmo sentimento. Para Kundera, a compaixão é muito mais terrível do que a piedade porque a incapacidade humana de transpor os limites da subjetividade faz com que o sentimento careça de um certo esforço imaginativo que quase sempre multiplica a dor do próximo, fazendo-a mesmo maior do que a do próximo.”

As línguas latinas dão um sentido que de certa forma refletem um sentimento exatamente contrário ao sentimento refletido pelo sentido dado pelas línguas germânicas.

Dó X co-sentimento

Depois de saber do significado de compaixão nas línguas germânicas, no nosso significado ela me parece uma massagem no ego de quem possui esse sentimento: a pessoa que sente compaixão se sente solidária por ter pena da outra. Achei bonito esse significado de co-sentimento, não é só solidário, é uma demonstração de companheirismo, fidelidade. Acho engraçado o significado mais caloroso ser dos povos de línguas germânicas e o mais egoísta (no sentido de ser solidário para atingir uma auto-satisfação de bondade) ser dos povos de línguas latinas, provavelmente porque os germânicos usam muito essa palavra para falar sobre os latinos enquanto os latinos a usam para falar sobre os germânicos (ho ho).

Li um post com um outro olhar sobre esse comentário do Kundera, achei legal: Desconcordo 

%d blogueiros gostam disto: